Um lugar para escrever sobre coisas no geral

Uma das maiores certezas que eu tenho sobre mim mesmo e que, de certa forma, me trouxeram para o ponto da vida onde eu estou hoje é que eu sempre gostei da sensação de saber que outras pessoas lêem as coisas que eu escrevo. Esse exercício de auto-conhecimento começou na semana passada quando, do nada, me deu saudade de ter um blog. Obviamente eu tuitei sobre isso imediatamente porque é assim que eu funciono.

A ideia de recomeçar um blog do zero sem um plano editorial e movido 100% pela vontade de dizer coisas ficou martelando a minha cabeça por dias, e eu tive tempo de sobra para revisitar todos os meus blogs antigos e relembrar como cada post que eu já escrevi me levavam imediatamente para aquele momento da vida, e me enchiam de um orgulho bobo que começava no “olha só como eu evoluí como ser humano!!!” e teminava no “olha como o Vitor de 17 anos já escrevia direitinho!!!!”. Então aqui estou eu, começando mais um projeto que vai me demandar tempo (que eu não tenho) e disposto a falar sobre a minha relação com blogs (e com a internet no geral).

Eu sempre dei um jeito de transformar os fatos mais banais da minha rotina pacata de estudante em narrativas melhoradas da minha vida. Durante meus 14 ou 15 anos, quando eu mantinha diários escritos a mão, fazia questão de levar o caderno e a caneta para dentro do banheiro da escola só para começar meus parágrafos com “Estou escrevendo isso aqui no banheiro da escola!”, porque qualquer coisa que fugisse minimamente do comum, eu enxergava como extraordinário. Esses diários nunca foram privados porque, depois de narrar um dia de semana comum da maneira mais elaborada possível, eu achava que o esforço não teria valido a pena se eu guardasse aquilo só pra mim. No dia seguinte, lá estava eu empurrando o caderno para a minha melhor amiga. “Gabi, lê como foi meu dia ontem. Na segunda folha eu falo de você!”.

Eu cresci em uma cidade pequena e minha adolescência foi puro suco de rebeldia barata. Eu me achava diferente demais, desajustado demais. Eu era literalmente aquela cena horrível de Riverdale onde o Jughead deixa bem claro que ele é um weirdo por causa do chapéu que ele usa. Foi na internet que eu encontrei um ambiente acolhedor onde a minha esquisitice não era apenas aceita, ela era celebrada. E foi assim que, aos 16 anos, eu criei meu primeiro blog: O Mundinho do Vih. O nome era podre, eu escrevia tudo em emuxês e o blog não durou por muito tempo. Mas aquela foi a minha primeira experiência compartilhando a minha vida na internet. No MDV eu postava sobre o meu dia na escola, publicava fotos com meus amigos, criava um mural de citações dos meus amigos (reais e virtuais) em um menu lateral infinito de piadas internas que hoje, mais de dez anos depois, não fazem mais sentido nenhum para mim.

Aos 17 anos eu entrei na faculdade de jornalismo, com a mesma maturidade do menino que relatava no Mundinho do Vih sobre como foi INCRÍVEL o dia em que ele e seus amigos pintaram o cabelo de verde com papel crepom na pia do banheiro do Bob’s. Eu sentia uma necessidade muito urgente de ser visto como um “adulto de verdade” que escreve “textos de verdade”. Deixei o emuxês pra trás e comecei a escrever com pontuação correta em um novo blog: O Fantástico Fusca Verde. Acho que essa foi a minha primeira experiência conversando de verdade com o público. Eu me esforçava 24 horas por dia para pensar em pautas divertidas que falavam da minha vida mas, ao mesmo tempo, conversavam com outras pessoas da minha idade. O ano era 2008 e a blogsfera estava mais forte do que nunca. Existia uma cultura muito grande de comentar em blogs dos outros, marcar seus amigos virtuais em “selos” que todo mundo exibia com orgulho. Este site tem o selo Blog Legal D+. O FFV ficou muito tempo ativo e até hoje eu fico feliz quando alguém aparece no Twitter dizendo que me acompanha desde a época do Fusca Verde. Parece bobo mas me dá orgulho saber que, no meio de tanta gente, eu consegui manter uma pessoa entretida com as coisas que eu escrevo por tantos anos!

Aos 20 anos, bem no meio da faculdade, eu entrei em crise. Continuava nessa batalha constante em busca da Validação Adulta e me questionava o tempo inteiro se eu deveria abandonar o curso de jornalismo e procurar outra coisa pra fazer. Crise causada por desejos de mudança? Isso mesmo. Outro blog. O Fusca Verde tinha se tornado quase um emprego não remunerado e eu tinha uma grade de postagens muito rigorosa que, aos poucos, se tornava cada vez mais difícil de manter. Eu queria um espaço para (adivinha só) continuar falando da minha vida mas, desta vez, com mais privacidade, em textos mais longos e sem tanta preocupação com edição de texto e imagem. Chamei o blog de Break your little heart in 2, título de uma das minhas músicas favoritas do All Time Low, porque era um nome longo e em outra língua e, de alguma forma, isso me dava o senso de segurança que eu precisava. A real é que eu só queria um lugar para reclamar das minhas escolhas de vida e chorar por um término de namoro traumático. Basicamente um Twitter com textos enormes.

Se o Fusca Verde me deu a experiência de conversar com um público pela primeira vez, o BYLHI2 me deu a experiência de ver um texto meu saindo da minha bolha e recebendo comentários de gente que eu nunca vi na minha vida. Eu não sei se foi através do sistema de feed do WordPress, mas uma postagem minha feita em fevereiro de 2010, com o título Jornalista imaturo, me trouxe mais de 60 comentários totalmente inesperados, em um texto que hoje eu leio e morro de vergonha. Nele eu falava sobre como me sentia inadequado na faculdade porque eu odiava tudo que as pessoas amavam. Porque eu pesquisei “jornalista famoso” no Google Imagens e o único que eu reconhecia era o Pedro Bial (por causa do Big Brother). Eu realmente prefiro manter este blog antigo no limbo da internet mas deixo aqui meu trecho favorito do texto:

Eu observo o que os meus amigos de faculdade lêem, assistem e escutam e, sinceramente, não me enquadro em nada. Acho tudo um saco. Detesto livros sobre o nazismo, detesto estudar coisas que aconteceram nos anos 20, detesto documentários franceses e música bem aceita pelas críticas. Quero dizer, BEATLES! Todo mundo ama os Beatles, certo? Eu não, rs. A única música deles que eu conheço, é Hello Goodbye. E só conheço essa porque os Jonas Brothers fizeram um cover dela!!!!!

Acho engraçado reler isso depois de tanto tempo e pensar que, mesmo estando em um momento muito mais claro da minha vida, o medo de ser piada por conta das coisas que eu gosto continuam sendo uma constante na minha vida.

No meio dessa história toda eu já tive um blog sobre filmes, um blog com mais 6 garotos que começou como um manifesto contra a cultura de colírios da Capricho e terminou de maneira desastrosa, alguns blogs sobre BBB, um diário de escrita, um blog de ilustrações e até um blog de poemas que eu escrevia para um ex-namorado que foi provavelmente o compilado de coisas mais bregas que eu já fiz na minha vida. Por um tempo também fui colaborador anônimo em um portal LGBT onde eu escrevia uma coluna chamada V de Viado. Eu narrava minhas experiências como Gay De Cidade Pequena, e assinava apenas como V. (#misteriosa). Foi um projeto divertido de fazer, que me ensinou um pouco sobre o senso de liberdade que ganhamos com o anonimato. Entre um projeto e outro fui abandonando o hábito de blogar e tomado pelo medo real de “ninguém vai ter tempo pra ler isso aqui”. Mas a verdade é que constantemente eu me pego usando a minha vida como pauta para a minha escrita (disso nasceram dois livros nos últimos dois anos). Mas tem coisa que nunca vai virar livro e precisa sair de mim de alguma forma.

Então, movido pela nostalgia dos tempos de blogueirinha e pela vontade de escrever coisas, estou começando isso aqui. Torçam pra dar certo e, obrigado pela leitura!

16 comentários em “Um lugar para escrever sobre coisas no geral

  1. Gente, que conexão! Eu super amei esse post, essa profundidade. Eu basicamente vivi a mesma coisa que você online, de flogões assinados de personagens de Harry Potter, ao meu blog atual que virou empresa e segue sendo minha pauta de desabafo através do compartilhar de momentos, histórias, opiniões e comportamentos. Eu super me senti inspirada a escrever algo assim, se me permitir, no meu blog. Citarei com certeza, sigo há um tempo, não sei há quanto tempo, mas sempre gostei da sua profundidade nas palavras. Estou para relançar meu blog que estava abandonado, e ele vai finalmente ser profissional e um caminho para renda fixa. Estou bem animada! Espero que nossos novos empreendimentos bloguísticos dêem certo! ;**

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  2. meu deus eu to muito feliz por vc ter criado um blog!!!!!!!! vc eh incrível e eu amo seu senso de humor!
    ansiosa pra acompanhar tudo!!!
    bjs e boa sorte no novo projeto, vitor.
    torcendo muito pra dar certo!

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  3. Simplesmente AMEI, amigo! Kkk já chegando na maior intimidade, mas, eu já venho acompanhando tão fielmente você, por tanto tempo, e me sinto tão representada que agora eu sou LITERALMENTE qualquer meme de enaltecimento já criado no twitter. Fique bem, ícone! É O SEU DESTINO SUSTENTAR A INDÚSTRIA NAS COSTAS!!

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  4. Acompanhei boa parte dos blogs e projetos citados nesse post e não poderia deixar de passar aqui. Vitor, tu poderia escrever um blog sobre espécies de animais invertebrados que eu estaria lendo super empolgada hahahaha desejo que esse blog traga muita coisa boa pra você (e pra gente) e seja algo pra você olhar com orgulho no futuro!

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  5. Vendo sua saudade de escrever blogs acabei lembrando da minha saudade de ler blogs. Acompanhei vários blogs durante adolescência: Depois Dos Quinze para beleza e conselhos, Série Maníacos para resenhas de séries (via os episódios de Glee/ Once Upon a Time e depois corria pra lá ver a resenha), Livros e Fuxicos e Garota It para livros, Isso Só Acontece Comigo pra rir, e muitos outros mais. Hoje acompanho esse pessoal todo no YouTube. Claro que em algum momento da minha adolescência tive a ideia de escrever um também kkk Eu e minha amiga criamos um blog pra falar dos nossos sentimentos e desabafar sobre a vida. Chamava “Está pensando o mesmo que eu?” e existia até uns dois anos atrás, até que minha amiga me convenceu a apagar. Ainda tenho alguns textos salvos no meu drive e quando leio hoje dia sinto um misto de vergonha e admiração (Não escrevia tão mal pra uma menina de 14 anos). De vez em quando ainda sinto uns ímpetos de escrever, mas na maioria das vezes deixo pra lá. Enfim, pretendo acompanhar aqui sua vida também. Li Quinze Dias ano passado e curti demais, me diverti e sofri com seus personagens. Terminei me sentindo abraçada. Um beijo :*

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  6. É muito doido pensar que existem pessoas que estão do outro lado da cidade, do outro lado do mundo ou simplesmente do outro lado da tela que são tão parecidas com a gente, e provavelmente é muito estranho iniciar um comentário assim, mas é verdade. Fico rindo quando leio os seus tuites e vejo que temos tantas coisas em comum, e mais divertido ainda, é quando percebo que muitas pessoas têm as mesmas coisas em comum com a gente, isso torna todo mundo próximo de alguma maneira.
    Na época da faculdade, não escrevi um blog ou um diário, mas as últimas páginas dos cadernos sempre tinham textos bem parecidos com: “Eu observo o que os meus amigos de faculdade lêem, assistem e escutam e, sinceramente, não me enquadro em nada. Acho tudo um saco (…)”, e isso até hoje me atormenta um pouco, porque essa cultura de que se alguém faz parte de algo, tem sempre que gostar das mesmas coisas que as outras pessoas inseridas gostam, ainda me sufoca, e acabo tendo medo de ser piada por conta das coisas que eu gosto, ou que não gosto, e tenho muito medo de não ser válido por isso.
    Enfim, falei muita coisa, mas o que quero dizer mesmo é obrigado. Obrigado por ser tão profundo em suas palavras, por ser aberto em seus sentimentos e por mostrar que às vezes, algo que parece um problema só nosso, não é só nosso, e que às vezes nem é um problema, é só um medo bobo que parece gigante porque achamos que estamos sozinhos.
    Aguardo ansioso por mais textos.

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  7. Eu amei saber um pouco mais a respeito da sua vibe blogueirinha. Gostaria de dizer que aos 30 anos, ainda me sinto, muitas vezes, desajustada e com receio da opinião/crítica alheia. Vou adorar te acompanhar por aqui, com toda certeza. Muito sucesso! Bjs!!

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  8. Vitor, que saudade de acompanhar seus blogs! Te conheci na época do ffv meio q ao mesmo tempo do te pego às 7 (era assim o nome? Hahaha) e vc se tornou uma grande inspiração para mim desde então.
    Adoro como sempre me identifico com os seus textos! : )

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  9. Eu adorei o texto e a sua volta ao mundo da blogosfera, sinto muita saudade de ler textos assim. Lembro que te descobri no te pego as 7, e depois fiquei viciada em te acompanhar hahahah sempre adorei o jeito que você escrevia e sentia falta dos seus blogs. Já to ansiosa pra ver os rumos que esse blog vai tomar. Me identifico demais com o que vc disse, só que nunca consegui manter meus blogs no máximo diários 3 morro de vergonha de compartilhar qualquer coisa haha

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  10. Eu sou uma das pessoas que te acompanham desde O Fantástico Fusca Verde (eu amava o Fuscafona). Depois continuei te acompanhando no Break Your Little Heart in 2, Te Pego às 7, Filmes e Pizza etc. Eu me divertia muito com sua escrita e achava legal o fato de você morar em uma cidade perto da minha, na época você morava em Friburgo (eu moro em Cachoeiras de Macacu). Fiquei feliz ao ver que você começou a escrever blogs de novo e eu continuo amando o que você escreve!

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  11. Eu sou uma das pessoas que te acompanham desde O Fantástico Fusca Verde (eu amava o Fuscafona). Depois continuei te acompanhando no Break Your Little Heart in 2, Te Pego às 7, Filmes e Pizza etc. Eu me divertia muito com sua escrita e achava legal o fato de você morar em uma cidade perto da minha, na época você morava em Friburgo (eu moro em Cachoeiras de Macacu). Fiquei feliz ao ver que você começou a escrever blogs de novo e eu continuo amando o que você escreve!

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