Coisas que eu aprendi andando de Uber ou Perdendo o medo de falar do meu trabalho

Eu uso o Uber muito mais do que eu deveria. Tenho a sorte e a maldição de morar em uma região mais ou menos central, onde eu consigo pagar mais ou menos 10 reais para ir pra qualquer lugar e é aquilo, você pede 10 corridas de 10 reais e no fim do mês se espanta com como aquilo se transformou em 100 reais. Andar de carro com motoristas randomicamente selecionados que eu nunca mais vou ver na vida me dá muitas oportunidades de interpretar papéis diferentes. Você já mentiu sua profissão quando o motorista te pergunta com o que você trabalha só pra se sentir mais descolado? Você já inventou alguma história que nunca aconteceu só pela emoção de poder ser uma pessoa diferente por dez minutos? Me diga que já fez isso e que isso é completamente normal, porque eu já passei uma viagem inteira da minha casa até a Faria Lima contando uma história imensa e detalhada sobre a primeira vez que eu pulei de pára-quedas e isso nunca aconteceu!!!!

Você já fez isso, né? Me dê um pouco de VALIDAÇÃO aqui, por favor.

Já andei com motoristas calados que não puxam conversa, já andei com motoristas que abriram a vida para mim (tipo uma vez quando um motorista passou comigo em frente ao Motel Caribe e sem nenhum aviso prévio começou a falar sobre como ele não tinha nenhum preconceito nessa vida, porque quando era adolescente foi apaixonado por um vizinho chamado Marcelinho, que hoje é uma linda travesti na Europa, e o motorista, apesar de ser casado, nunca esqueceu do seu primeiro amor de verdade!!!!!), mas hoje vou contar um pouco sobre uma viagem específica que frequentemente me vem à memória.

Foi em novembro do ano passado, e eu estava indo para Belém fazer um evento do meu livro lá. Era sexta-feira, estava chovendo e a viagem da minha casa até Guarulhos, que geralmente dura uns 40 minutos, levaria uma hora e meia segundo o Google Maps (e de fato levou, pois o Google Maps não costuma errar). Eu estava particularmente muito falante naquele dia (ansiedade para viajar me deixa assim) e, em uma hora e meia, eu e o motorista conseguimos conversar sobre muita coisa. Fui 100% honesto neste dia porque não dava pra sustentar um personagem por tanto tempo e quando falei que era escritor e estava indo viajar para participar de um evento sobre os meus livros, ele ficou extremamente empolgado.

Claro que a primeira coisa que ele disse foi “Eu já comecei a escrever um livro mas ele tá parado agora, sabe como é né, foda…” porque isso é o que 80% das pessoas comentam quando você diz que é escritor. Mas, logo em seguida, ele começou a me encher de perguntas (e eram boas perguntas), sobre meus personagens, meu processo de escrita, minha forma de organização para lidar com prazos e tudo mais. Eu estava me sentindo entrevistado pela Marília Gabriela, e elaborava minhas respostas da forma mais completa possível porque tínhamos tempo de sobra.

Em um determinado momento depois que eu passei, sem brincadeira, uns 10 minutos reclamando do meu emprego “de verdade” (o de segunda à sexta, que paga o aluguel) e pedi desculpas logo em seguida por estar me abrindo tanto, ele disse “Não tem problema, pode reclamar à vontade. Uber é a terapia de quem não tem dinheiro pra pagar terapia.” e isso não tem nada a ver com o rumo principal da história mas achei uma colocação IMPORTANTE.

Estávamos quase chegando ao aeroporto, quando ele jogou no meu colo uma notinha fiscal de Lava Rápido e uma caneta e pediu para que eu anotasse ali o nome dos meus livros porque ele ia pesquisar depois para comprar, pois me achou extremamente “gente fina”. Eu não sei se ele de fato foi procurar depois e muito menos se ele comprou. Mas o interesse que ele demonstrou foi o bastante pra me deixar feliz. Chegamos no destino final e ele saiu do carro para me ajudar a tirar a bagagem do porta-malas e, antes de ir embora, mandou o clássico “Depois dá 5 estrelas pra mim lá” e eu, que estava me sentindo muito engraçadinho, respondi “Dá 5 estrelas pros meus livros também” e fui embora (esperar por 4 horas no aeroporto porque eu sou precavido demais quando se trata de vôos e sempre chego muitas horas antes, para estar com uma margem de tempo boa caso aconteça algum acidente no trânsito ou o fim do mundo em si).

Naquele dia eu percebi que, assim como o motorista de Uber que depende das avaliações, eu também tenho um produto que pode ser avaliado por qualquer pessoa. Não que eu tenha percebido isso naquele momento porque eu sou meio obcecado com reviews e acompanho com frequência e literalmente sei de cor as palavras da minha primeira review 1 estrela na Amazon #traumas.

O que eu percebi foi como, mesmo depois de dois livros lançados, eu nunca havia falado sobre o meu trabalho para um estranho sem contexto. E isso não aconteceu porque eu tenho medo do que pode vir depois. Claro que nas Bienais eu abordei um monte de desconhecidos, mas eles estão na Bienal do Livro. É de se esperar que a qualquer momento um autor vai pular na sua frente pra falar sobre o seu trabalho. Já falei dos meus livros em eventos, mesas de debate, entrevistas mas, em todas elas, era esperado que eu falasse do livro. O que fator inédito para mim foi exatamente essa conversa que se desdobra com “Qual é o seu trabalho?” “Eu sou escritor.” “Legal! ME FALE SOBRE OS SEUS LIVROS!”.

Onde eu quero chegar com isso tudo? Boa pergunta.

De uns meses para cá eu venho perdendo o medo de falar sobre o que eu escrevo em ambientes novos para mim. Claro que, quando solicitado, porque eu não vou simplesmente brotar em lugares aleatórios e gritar LEIAM QUINZE DIAS E UM MILHÃO DE FINAIS FELIZES. Mas, para quem quiser saber, eu vou sempre falar de Felipe, Caio, Jonas, Arthur e toda a turminha com todo o amor que estiver disponível dentro de mim na ocasião. Ser escritor e viver nesse constante medo que vai do “Eu preciso falar mais sobre o meu livro” até o “Eu preciso falar de outras coisas porque as pessoas já devem estar CANSADAS de mim”.

Isso me pegou muito no começo de 2019. Porque nos dois anos anteriores eu lancei um livro por ano e de certa forma eu sempre tinha um projeto em andamento para falar a respeito. Você já leu meu primeiro livro? Ótimo, porque eu estou ESCREVENDO O SEGUNDO! E quando chegou na hora do terceiro as coisas desandaram porque a) minhas ideias ainda estão bagunçadas e b) eu sou um ser humano!!!! Decidi que em 2019 não vai ter nenhum lançamento de romance (e já me acostumei com essa ideia) mas, ao mesmo tempo me veio essa aflição de não saber o que oferecer para as pessoas porque eu “só tenho esses dois livros” e todo mundo já leu, certo? ERRADO. Muita gente não leu. Eu não sou o PAULO COELHO, ou o Quem mexeu no meu queijo? ou qualquer outra coisa que todo mundo já leu na vida seja para uma dinâmica horrível proposta pelo RH ou porque não queria ficar de fora da onda do momento. Eu tenho dois livros que muita gente ainda precisa conhecer e, por não serem lançamentos, eu vou precisar trabalhar muito para que os leitores cheguem até eles enquanto o terceiro livro não vem.

Acho que estou me estendendo demais aqui mas, o que eu quero dizer, principalmente para todos os escritores / aspirantes a escritores / artistas e pessoas criativas no geral que por um acaso estão lendo isso aqui é: não tenha medo de mostrar o seu trabalho!!!! Existe um livro chamado MOSTRE SEU TRABALHO que eu não li mas provavelmente fala sobre isso porque o título é bem auto-explicativo, então eu não devo estar trazendo nenhuma novidade aqui. Mas eu precisei que um motorista de Uber me pedisse para falar sobre os meus livros para que eu entendesse que às vezes as pessoas estão em uma viagem de uma hora e meia para o aeroporto, e elas não tem nada pra fazer, e não seria nada mal conhecer algo novo.

Achar que quando você fala com frequência sobre um projeto seu você está cansando as pessoas é presumir que todo mundo te acompanha 24h e, infelizmente, isso não é verdade. Você não é a Kim Kardashian. Se você postar a mesma coisa de manhã e de noite, pessoas diferentes vão ver porque a internet é imensa e ninguém consegue acompanhar tudo. Livros demoram anos para chegar do ponto A (o primeiro rascunho) até o ponto B (a versão final e disponível para os leitores no formato que seja). É muito trabalho para ser o tipo de coisa que você comenta nos dois primeiros meses de lançamento e depois não toca mais no assunto porque não quer atrapalhar. Tenha orgulho da sua trabalho e fale sobre a sua jornada. Se você não tem nada novo para mostrar agora, eu tenho certeza que em algum lugar no meio dos seus amigos ou dos amigos dos seus amigos, existe alguém que adoraria conhecer a sua história mas ainda não teve a oportunidade. E no meio de tanto anúncio pago, meme horrível e notícia trágica, a sua história pode cair nos braços (ou “no feed”, que são nossos braços virtuais) de alguém que estava esse tempo todo doido para conhecer o seu trabalho. Você só precisa mostrar.

4 comentários em “Coisas que eu aprendi andando de Uber ou Perdendo o medo de falar do meu trabalho

  1. nossa vitor, esse post era tudo que eu precisava ler. recentemente terminei de escrever meu primeiro romance e me senti extremamente insegura em deixar amigos próximos lerem. eu tenho muito medo do que eles podem falar e só de pensar nisso eu já chorei umas três vezes. mas sabe? eu demorei 1 ano para organizar as ideias e sentar para escrever. tudo ali saiu da minha cabeça e foi escrito por meus belos dedinhos. achei extremamente importante ler o que você disse, temos que dar valor ao que fazemos. te admiro muito. você é um escritor incrível, um dos meus favoritos nacionais. e eu adorei esse blog ok? agora vou parar de puxar seu saco. hahaha

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  2. Mano… esse texto era tudo que eu precisava???? Sei que não sou o primeiro a falar isso, mas to passando por algo parecido recentemente.
    Eu tbm tenho um blog, que eu criei por volta do final do ano passado; blog esse que eu posto conteúdo com uma certa frequência, muitas vezes cheguei até a divulgar nas redes sociais, mas sem nenhuma confiança de que alguém fosse realmente ler. Eu não tinha muita confiança no meu trabalho, até pq eu não me considero escritor nem nada, e meu blog não é nada muito profissional (inclusive deve ter varios erros
    ortográficos ), enfim.. eu não levava meu trabalho a sério, mas ultimamente eu tenho participado mais ativamente desse microcosmo dos “produtores de conteúdo” e tenho tido um certo retorno, algumas pessoas realmente leem meus textos e gostam deles. O que me fez parar pra pensar “se X pessoas (fora do meu círculo de amizades) leram meu blog e gostaram… deve ser pq oq eu to fazendo é bom, então pq eu não dou o devido valor a ele?”. Então eu tenho começado a falar do meu blog com mais orgulho e produzir com maior entusiasmo, pq eu tenho alguns poucos leitores que gostam do meu trabalho. E quem sabe daqui a umas semanas, meses, ou anos esse número não aumente e eu seja reconhecido pelo meu trabalho? Hahahaha mas isso é só uma visão extremamente otimista da situação. Mas eu já to me extendendo demais… em suma eu só queria deixar um grande muito obrigado por esse incentivo à continuar mostrando meu trabalho. 😁

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